Em Santa Marta, 15/09/2011
Com tuas estradas longas
e paisagens largas
Lugares longes
e villas esparsas
Saltam de tuas veias cores e perfumes
distâncias, desafios e descrenças
Serão assim tão diversos teus estrangeiros costumes
quanto são poucas nossas domésticas desavenças?
Por teus povos piedosos
e crianças perdidas
Sujeitos ardilosos
e mulheres feridas
Lanças-me em uma jornada de caos e suor
amores, andanças e alentos
Será assim tão insuperável o que tens de pior
quanto parecem ser irrecuperáveis teus melhores momentos?
Com tuas frutas saborosas
em calles suntuosas
Escuta-se buena salsa
e fazes do samba tua valsa
Escorrem de nossos poros sangre y cerveza
recordações, remorsos e rumores
Será assim tão melodiosa tua tristeza
quanto são sempre tão calientes teus amores?
Para onde vais, se dormes nas ruas?
Para quê ficas, se as riquezas não são mais tuas?
Porque danças, se tampouco há esperanças
de que teu futuro seja limpo, calmo e branco?
Negras são tuas noites e tuas gentes
E agitadas estão as correntes que ainda prendem este povo no chão
Não fossem estes pesos evidentes
desafiarias as gravidades intransigentes
e subirias como as estrelas ascendentes
para explodir, lá no alto, e no fundo do ouvido
Fazendo-te, assim, semelhante ao estrondoso ruído
que se produz em teus mercados tão pouco exigentes.
E contra tamanho barulho, luta qualquer refinado sentido.
Ao mesmo tempo em que teu rítmico ganido frequente
aproxima corpos brutos por teu sonido estridente.
Pois teu batuque negro não passa desapercebido
e nem lhes pode ser indiferente.
Atrais-me cada vez mais, e ainda me repeles a cada investida
De uma aproximação cuidadosa aos desvario passional
me encho de ti.
Afastas-me cada vez menos, e já me encantas a cada acolhida
De um interesse genuíno à exploração acidental
me esvazio de mim.
Como saber o que fui buscar em ti
sem reconhecer o que muito já estava em mim?
Sou feito de teus defeitos, embora queira mudar nossos destinos
Sou o acerto de teus erros, embora trilhemos juntos os mesmos caminhos
Vou em busca de tuas grandes terras
E o que encontro são teus latinos
Volto a travar minhas pequenas guerras
E não encontro nada mais que meus desatinos
Nunca houve um amor à primeira vista como esse
Começado de um grito que dizia "Terra à vista"
E terminado por um grilo que vendia a terra à vista
Quando será que voltaremos a nos encontrar?
Ou estarás sempre aqui, sob meus pés (e, mais, dentro de mim)
na terra em que eu escolher para morar?
by MBF - 03/10/2011
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