Sobre a despedida
(...)
Uma despedida sempre causa transtorno. Não somente pelo sentimento que gera, mas pela alteração que provoca.
Uma despedida é sempre difícil porque é originalmente um contra-fluxo no ritmo natural das coisas, é um contra-senso, é uma insubordinação à continuidade dos desejos.
Uma despedida, como a palavra indica, acontece quando se desfaz o pedido, quando se deixa de pedir o que se havia pedido. Aquela coisa pedida, portanto, torna-se supérflua, desnecessária, indesejada - como, aliás, antes o foi.
Uma despedida, no entanto, nos faz observar o pedido novamente. É como o perdão, que para acontecer precisa da lembrança. A despedida, para se concretizar, precisa rememorar o pedido, precisa retomar o desejo, precisa da certeza de que não mais se quer o que se queria antes.
O problema é que, muitas vezes, o pedido original se transmuta justamente nas razões para não mais se pedir. E aí a despedida é somente um descarte, só mais uma mudança, nada mais que um abandono.
Mais complicado, no entanto, é o caso reflexivo: despedir-se.
Despedir-se envolve o sujeito do pedido, e não somente a coisa pedida. Para despedir-se é necessário deixar de pedir a si mesmo. Despedir-se é perder-se, e ter de se acostumar com um outro "eu".
Despedir-se é traumático, portanto, porque é a negação de quem pede, é a diminuição e o constrangimento do que já se quis. É, no fim das contas, sempre uma acomodação à invariável mudança e ao constante apequenamento do tempo.
Afinal, o tempo não passa. O tempo diminui.
E diminui, geralmente, na mesma proporção em que as despedidas aumentam. Isso, é claro, se tudo correr bem.
(...)
Crédito da foto: Orlando Pedroso
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