ou "Sobre como ser você mesmo"
E se te perguntarem quem é você?
Talvez você não saiba nada sobre a sua identidade, sobre como é o seu sujeito dentro de um mundo. Seus olhos não conseguem se voltar para dentro de você, você não pode se explorar. Suas ações tem implicações nos outros e seu sofrimento é por desejar algo que está fora.
Mas somente você pode afirmar sobre sua condição pessoal, seu estado. Somente você tem acesso privilegiado aos seus sentimentos, suas sensações. Ninguém, além de você, consegue perceber melhor suas intenções e desafetos.
Um amigo ia passeando certa vez por uma estrada e, quando passávamos por uma ponte, ele viu um escorpião sendo arrastado pelas águas. Correu pela margem do rio e tomou o bicho na mão. Quando o trazia para fora, foi picado. Não aguentando a dor, deixou o escorpião cair novamente no rio. Mais sereno, tomou um pequeno galho seco, andou novamente pela margem, entrou no rio, e apanhou novamente o escorpião. Voltou à estrada.
Fiquei assistindo à cena perplexo e penalizado:
- Porque foi salvar esse bicho ruim e venenoso? Não te dói saber como ele respondeu a sua ajuda? Ele picou a mão que o salvara! Talvez não merecesse sua atenção!
Meu amigo ouviu tranqüilamente os comentários e respondeu:
- A dor maior viria de dentro de mim, se eu não pudesse agir. Ele agiu conforme a sua natureza, e eu de acordo com a minha.
Você pode ser quem acha que é?
Se você pudesse ser e agir conforme a sua natureza, talvez não tivéssemos uma convivência possível. A adaptação e a reação muitas vezes são fluxos de forças que passam por você, transformando e ressignificando. Mas elas deixam você cada vez mais afastado do que pode ser sua natureza conquistadora e subjugadora. Afirmar seu amor pelo fato que ocorre, pelo mundo que existe parece ser seu maior dilema agora. Mudança e afirmação, juntas, exigem demais de você.
Talvez por isso esteja triste, profundamente triste.
Sem ressentimentos, pois os valores não lhe são mais tão importantes quanto a sua condição, a sua vontade.
Agora que já dispensou sua memória, seu ego, não precisa guardar rancores - mas você só faz isso porque já deixou eclodir sua força, sua raiva, seu desprezo, seu suor que lhe entala a garganta. Desopilou.
Mas você terá de concluir o que começou. Ou então, deixe a ação continuar, ser digerida, perseguida - que venham outros como você. E observe o retorno de tudo aquilo que um dia já passou, passa e passará. Sereno. Será sempre o mesmo, porque cada vez é único. E as possibilidades, infinitas.