Pensando na viagem que fiz recentemente à Venezuela, me lembrei de uma passagem de Gilles Deleuze:
"
Há uma bela frase de Proust que pergunta o que fazemos quando viajamos. Sempre verificamos algo. Verificamos se aquela cor com que sonhamos está ali. Mas ele acrescenta algo muito importante: 'Um mau sonhador é aquele que não vai ver se a cor com a qual sonhou está lá. Mas um bom sonhador vai verificar, ver se a cor está lá'." (DELEUZE,
Abecedário. p. 104-106) Veja
aqui o texto completo.
E daí escrevi um texto para o Antonio Lino, um amigo-viajante que sempre escreve lindamente no seu blog "
Diz que fui por aí".
Querido e lembrado Antonio,
fiquei aqui me perguntando, como pude me perguntar uma dezenas de vezes neste último mês, o que será que você estará fazendo - e onde estará fazendo o que faz?
Ao ler este último relato, fiquei sem saber se o trajeto pela África chegou mesmo ao fim. E, mais por mim do que por você, eu me deixo sentir um desejo de "sim".
Estive neste último mês na Venezuela. Um estranho e atraente país latino-americano que me fisgou as vontades um par de anos atrás. Como uma certa vontade-de-ser-você, me peguei por diversas vezes pensando: o que será que faria o viajante-Antonio nesta situação? Só perguntando aos mais experimentados para poder lidar com a essencial surpresa de viver de uma mochila. E a vontade de compartilhar saberes e estórias de viagens continua grande. Numa mistura de orgulho e inveja, de saudade e curiosidade, meus pensamentos por vezes esbarravam na mesma pergunta: o que será que faria o viajante-Antonio nesta situação?
Assim passei o último mês. E vc, por incrível que pareça, me apareceu um punhado de vezes - ainda que esteja tão distante. Apareça mais, agora com carne e memórias. Seus relatos satisfazem somente minhas necessidades de indolência e de beleza espiritual e poética.
Nunca ouvi você dizendo, mas bem que poderia escutar com a sua voz: viajo porque preciso. E isso me acalmou os ânimos incansáveis neste último mês.
Num filme de mesmo nome - "Viajo porque preciso, volto porque te amo" - o desfecho é menos imponente que o que hora você me oferece: quero voltar sempre e somente quando já tenha "esquecido bastante quem cheguei".
Querendo saber desse "esquecido" Antonio, deixo um abraço distante.
Mateus
psiu. Cheguei a publicar uns relatos da viagem à Venezuela, para compartilhar com amigos no blog
O Aventureiro.