Sei que não devo esperar que todas as pessoas de quem eu gosto, gostem de mim. Mas queria que pudessem saber, aquelas pessoas que gostam de mim, que de nem todas elas eu gosto. E quero acreditar que isso não invalidaria a amistosa convivência que podemos criar e manter.
Quero acreditar que um dia o conteúdo do que eu digo será indiferente à forma com que ele é transmitido, pois o som chegará ao coração antes das palavras chegarem à mente; e a intenção chegará ao espírito antes da dor chegar ao corpo – e, mesmo assim, que se possa afirmar, mais ainda, que sabemos receber a força das palavras na mente e a tensão das idéias no corpo.
Não quero amar alguém só por medo de não amá-lo ou porque, inclusive, poder odiá-lo profundamente faria de mim alguém menos humano ou implicaria na minha necessidade de aniquilá-lo – não quero amar só para parecer bom ou para parecer inofensivo. Quero acreditar que o amor e o ódio são forças criadoras – e não destruidoras – presentes em igual medida, mas sem equilíbrio algum, dentro de mim.
Quero acreditar que a convivência é possível entre as pessoas, mesmo quando elas discordam em todos os pontos, pelo simples fato de que conviver deveria ser um contínuo querer revelar-se ao outro, nas suas sombras tanto quanto nas suas luzes. E desejo, apostando nisso, acolher o outro em sua inteira dimensão, sem querer somente a parte que me interessa ou aquela com a qual eu consiga lidar.
Se, para toda falta de sensibilidade de um lado, há um véu que impede o tato de outro, que eu possa ser perdoado na minha falta de trato tanto quando desejarei o desvelamento para o toque.
Não tenho a pretensão de dizer que as pessoas um dia conhecerão a si mesmas a tal ponto que não precisarão, pelas suas vaidades e temores, machucar o outro (ou se deixarem machucar pelo outro). Só queria que se soubesse fazer do outro um espelho, fino e delicado, dentro do qual se possa acordar justamente após dormir em si mesmo.
Quero sempre acreditar que não preciso falar das outras pessoas, pois acredito que possa sempre falar com elas, mesmo quando elas não estiverem presentes, pois nossos corações estarão ligados e em profundo respeito mútuo. E pretendo que um dia seja certo que nunca precise falar das outras pessoas somente quando elas não estiverem presentes, pois minha liberdade não será medida pela opressão que elas me causam quando estão presentes. Saberei notar que a opressão que elas me causam é proporcional à opressão que eu deixo que me causem e à pena que sinto de mim por isso.
Quero acreditar que poderei sempre dizer o que precisa ser dito sem ter de parecer falsamente gentil ou fraterno. Mas sei que não devo achar que sempre distinguirei o que precisa ser dito daquilo que não precisa ser dito. Para evitar a falha da omissão, só vejo a excelência do excesso como caminho - excesso tanto das palavras quanto das gentilezas. Mas se me calar, que não seja por falta de gentilezas para oferecer ou por medo do peso das minhas palavras (e de suas conseqüências).
Quero supor que posso ser sincero, sem precisar ser franco. E não quero parecer bondoso por medo de ser sincero. Mas pretendo ser sincero sem ter medo de não parecer, por isso, gentil ou fraterno. A franqueza depende da verdade, que é sempre construída; ao passo que a sinceridade é interpretação, que não exige comprovação, constatação ou correspondência com o mundo. Minha sinceridade pode ser louca, mutável, só minha - só não pode deixar de ser fiel. E minha franqueza é como o franco-atirador, independente, fria e covarde; e ninguém suportaria a verdade que ela carrega.
Quero acreditar que a profundidade de uma relação também se mostrará na proporção em que se dá o esforço por cumprir promessas e a habilidade de perdoar as não cumpridas. E imagino que essas relações tenham muito mais a ver com o conteúdo das ações do que com a forma, pois nós dois sempre saberemos que o que veio do outro sempre passou por um coração antes de chegar ao meu.
Não tenho o despudor de acreditar que não falharei, mas quero acreditar que tenho forças suficientes dentro de mim para acolher minhas próprias paixões, minhas vaidades particulares, os afetos e os desafetos que estão dentro de mim. Não quero precisar despojar toda a minha ira ou toda a minha culpa ou, pior ainda, toda a minha pena de mim mesmo, no outro - e não precisarei investigar a sua vida ou culpá-lo por eu ser assim como sou. Quero acreditar que consigo afirmar que o outro é parte do que me constitui, sem que isso seja, para ele, um fardo que eu lhe atiro às costas e que o impeça de dançar. E desejo que o outro nunca peça para que eu mude, por sua incapacidade de lidar com minha mudança constante – ou até de percebê-la.
Quero, em breve, dizer mais claramente que o que me move é o amor. Mas precisaria ter a certeza de que ninguém irá me compreender equivocadamente ao assumir, com isso, que eu me encaixaria na sua própria configuração de amor – meu amor é singular, virtual e esquizofrênico. Por isso mesmo não quero amar alguém de forma que esse outro se aprisione no meu amor e dele não viva sem. Quero que meu amor seja desnecessário, ainda que insubstituível. Quero que meu amor seja avassalador, ainda que emancipador. Quero que meu amor seja intenso, ainda que evite tocar as profundezas do outro: porque só o amor do outro por ele mesmo é que deveria chegar tão fundo...
Sinto que isso tudo me deixaria, aos olhos insensíveis de pessoas descuidadas de mim (e delas mesmas), passar por vaidoso, agressivo e egoísta. E sinto que isso não me importa tanto quanto ser claro o suficiente para dizer a essas mesmas pessoas que, com estes juízos, elas estão sendo insensíveis e descuidadas com nossa relação – e isso tem muito mais a ver com vaidade, agressividade e egoísmo. Mas mesmo assim, quero ter disposição para, novamente, poder notar, antes, o que isso revela sobre mim mesmo.
By MBF – 23/05/07
Pra quem quiser, as fontes de inspiração são, dentre outras:
- Um ser humano completo, de Mário Quintana
- Forjando a armadura, de Rudolf Steiner